Ciência versus fé no mercado de arte…

Terra Brasil (31-07-2017)

Este título deve ter sido utilizado inumeráveis quantidade de vezes ao longo da história, trata-se de uma discussão milenária, porém fazer referência ao mercado de arte deste jeito deve ser pelo menos pouco frequente.

Foto: DINO

O mercado de arte em nível mundial é uns dos setores mais voláteis, instáveis e menos regulamentados de todos os mercados comerciais. Segundo o TEFAF (Global Art Market Report) as vendas mundiais do último ano superaram a cifra de 45 bilhões de dólares e isso só considerando o mercado formal pois que se estima que mais de 70% seja realizado no âmbito privado e fora de qualquer tipo de estatística e controle.

O mercado está invadido por curandeiros onde as decisões de compra sobre peças de arte estão determinadas pela fé…Sim, por acreditar que se está vendendo é original e legitimo, as decisões continuam sendo definidas por um grupo de “especialistas-iluminados” que consideram ter os conhecimentos empíricos suficientes para determinar só com um olhar se uma peça de arte foi feita por Portinari, Kandinsky ou Pollock. A história lhes outorgou uma grande soberba alimentada pela impunidade de ser “autoridades” para determinar se uma peça é autêntica ou não segundo seu critério pessoal. A escassez de profissionais sérios e acadêmicos que ofereçam uma alternativa ajudou muito a sua proliferação.

A falsificação de arte é tão antiga como nossas civilizações, no museu de Estocolmo na Suécia existem papiros que falam de falsificação de pedras preciosas. No século XV foi pintada uma virgem com uma criança pelo artista Pietro Perugino, porém existem duas peças “originais”, uma no museu Louvre e outra na National Gallery de Londres. O que sabemos é, que a peça da National Gallery foi certificada pelo especialista Anthony Blunt uma pessoa que foi declarada com o tempo como espião soviético, falsificador e membro do círculo de Cambridge de 1930. Temos exemplos como para escrever um livro.

Na atualidade a peritagem forense, científica e profissional oferece uma proposta superior àquelas oferecidas pelas casas de leilões ou fundações para determinar a autenticidade de obras de arte. Só para mencionar alguns exemplos arredor do mundo existem empresas que com rigor acadêmico pesquisam, avaliam e certificam obras de arte casos como Art Fraud Insights nos Estados Unidos, Givoa Consulting na Argentina e Brasil, Actio Arte e Ciência na Espanha entre outras. 

O mercado atual da arte, cheio de suspeitas determina o destino de uma obra de acordo com seus antecedentes escritos (estima-se segundo a estatística internacional que uma parte importante dos papeis ou documentos que acompanham as peças são falsos ou modificados). O prestígio do vendedor junto à necessidade de fazer um negócio determina que a procedência é a regra utilizada para fazer operações bem-sucedidas. Mas…, e a obra de arte? Infelizmente o bem cultural poucas vezes tem maior importância que seus papéis. Temos muitos exemplos em nossa história recente onde o fato de criar procedências, lavar dinheiro e falsificar documentos é comum e accessível para quem utiliza a arte como meio de fazer um negócio. Segundo a UNESCO o tráfico ilícito de bens culturais é uma das principais fontes de financiamento do terrorismo internacional.

Existe um circuito perfeitamente estabelecido onde todos aderem: uma peça de arte que tem prestígio por seus papeis ou documentos é avaliada para a venda, é feita a busca de um especialista para emitir um documento para atualizar os antecedentes, logo depois vai para venda e finalmente quem compra a obra acredita em toda documentação. Feito tudo isso a operação é realizada com sucesso. O único que desejam muitos desses atores do mercado de arte é fazer um negócio rápido e eficiente mesmo que às vezes essas transações estejam afastadas da ética e a verdade.

Peças esquisitas: o problema vem quando estes “iluminados” se encontram com obras de arte que são atípicas ou não tem antecedentes. Nesse momento é onde eles não sabem o que fazer, não tem como justificar sua decisão negativa quando são consultados. Normalmente eles só se limitam a dizer “Acho que isto não é autêntico”, mas não assinam nem fundamentam suas considerações, eles simplesmente não podem fazê-lo porque não sabem ou não tem certeza. Qual é a importância de onde ficou essa obra no passado? Qual é a diferença se foi um presente, um descobrimento ou um bom negócio entre particulares? Quando o que verdadeiramente importa ou deve importar é a obra, se ela é ou não autentica e se foi legitimamente adquirida.

Ainda é um mistério se este comportamento do mercado é uma manifestação de Cinismo ou um simples mecanismo de proteção. A ignorância sobre os processos atuais das perícias de arte faz que os atores do mercado ativem como defensa a rejeição a qualquer inovação no método historicamente utilizado por eles para manter intacto o Status Quo. 
Fazendo uma analogia, começou um longo caminho parecido ao qual em tempos remotos os primeiros médicos recorreram quando se enfrentaram à hegemonia dos curandeiros, os peritos de hoje com o relacionamento interdisciplinar e em parceria com conservadores de arte, historiadores, químicos e físicos irão avançando e imporão a verdade acima das circunstâncias comerciais. No final o único que interessa é a proteção do patrimônio cultural legítimo e original.

Uma luz de esperança: em 2016 foi realizado em Buenos Aires, Argentina o primeiro Congresso Internacional de Peritagem de obras de Arte (ICAE) onde 10 palestrantes expuseram sobre a vanguarda tecnológica, os métodos de pesquisa e a efetividade dos trabalhos em parceria entre o setor público e privado.

Em 2018 o ICAE vai desembarcar no Rio de Janeiro a segunda edição do congresso onde se esperam as apresentações de 6 palestras internacionais e dois nacionais. Eles darão continuidade a este caminho em busca da verdade e a proteção do patrimônio com o uso da tecnologia. Com marcos como estes se espera que o mercado tenha novas e melhores ferramentas para ser transparente e um novo paradigma seja imposto no setor.

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